terça-feira, 8 de novembro de 2011

O que Navarro fez é um filme da Bahia por excelência, que já começa com um contador narrando....

O fantasma do cinema brasileiro

“O Homem que Não Dormia” é o tipo do filme que o establishment cinematográfico gostaria de ver longe das telas.
No mais, acredito que conseguirá; a barragem hoje é muito forte contra tudo que não seja “agradável”.
E, no entanto, como diz o próprio Edgard Navarro, autor do filme, há muitas coisas desagradáveis no mundo “a começar por mim”.
Há alguma coisa desagradável em “O Homem que Não Dormia”, mas não muita, essa é a verdade. O que Navarro fez é um filme da Bahia por excelência, que já começa com um contador narrando histórias fantásticas de lobisomem e mula sem cabeça para uma platéia encantada com aquilo.
Não há distância entre narração e fato.s O narrador diz o que aconteceu e todo mundo acredita.
O que se segue é uma série de aparições de seres misteriosos, de deuses e semideuses, demônios e outros seres malvados, de cartomantes com previsões, procissões, cornos, fofoqueiros, coronéis ameaçadores, o fabuloso homem condenado a viver eternamente, de maneira errante e sem dormir. Aqui o sono se confunde com a vigília, assim como o passado com o presente, os santos com os demônios e o sonhado com o mundo real.
Não há separação entre o mundo de semideuses e figuras fantásticas e o cotidiano da uma cidadezinha: o fantástico está entre os homens e é vivido como realidade, sem diferenciação.
E mais uma vez fica a impressão de que o velho “cinema marginal” dos anos 70 ressurge hoje como fantasma do “Brasil novo”. Naquele momento era rebarbativo, não raro agressivo, porque queria tratar de uma situação em que o feio, o desagradável, o não-dito eram solidamente reprimidos.
Hoje o mundo é outro .
O cinema oficial está aí, feliz, cheio de espetáculos. É importante desafinar o coro dos contentes, o que o filme de Navarro faz não sem desenvoltura.
E às vezes desenvoltura demais, concordo. Esse hábito de investir em imagens escatológicas (desta vez delicadas para seus padrões: não falta gente urinando) parece uma marca pessoal que o diretor acredita caracterizar seus filmes. Eu não acho que seja bem assim.
As idéias acabam alguns minutos antes do filme, e a necessidade de dar fecho às várias histórias já chega num estado de esgotamento. Da mesma forma, me parece meio pueril a solução final (embora plasticamente interessante), referente ao padre: o que até ali vinha sendo levado com ambigüidade e equilíbrio parece de consolidar em um anticlericalismo (ou anticatolicismo, no caso dá no mesmo) que limitam o conteúdo gostosamente fantástico da maior parte do filme.
Mas isso é bem pouco para invalidar um esforço inteligente e mais que talentoso.
Como eu disse: isso não vai para o cinema assim tão fácil, não.
Mas aqui, nesse canto minoritário, também meio marginal, vai existindo, sim.


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